Rabino Arie Rotenberg

Avraham Avinu e os Visitantes – Um relato histórico ou atual para nossas vidas?

“E apareceu-lhe D’us… estando ele assentado à porta da tenda, no calor do dia” – assim começa a porção da Torá (Parashá). Aprofundemo-nos neste versículo, tão especial.

D’us apareceu a Avraham Avinu, mas o que Ele lhe disse? Não está escrito, explicitamente. Nossos Sábios (Chazal) explicam – e Rashi traz essas palavras –, que Avraham Avinu estava no terceiro dia após a sua circuncisão (Brit Milá), dia em que a dor é extremamente intensa. Por essa razão, D’us apareceu a ele, para visitá-lo, para demonstrar que Se importava com o seu bem-estar e que estava ao seu lado em sua dor. Disto, o Talmud conclui: assim como D’us visita os enfermos, você também deve visitar os enfermos. Isso se aplica não apenas à visita aos doentes, mas fomos ordenados a imitar cada atributo e conduta do Criador, para que, por meio disso, possamos nos elevar espiritualmente e nos apegar a Ele.

E assim escreve o Talmud (Tratado Sotah, página 14a): “Disse Rabbi Chama bar Rabbi Chanina: O que significa o que está escrito: ‘Aós o D’us vosso D’us andareis’ (Devarim 13)? Acaso, é possível para um homem andar atrás da Presença Divina (Shechiná)? Não já foi dito: ‘Porque o D’us, teu D’us, é um fogo consumidor’ (Devarim 4)? Mas significa andar após os atributos de Hakadosh Baruch Hu: assim como Ele veste os nus – como está dito: ‘E fez o D’us D’us para Adão e sua mulher túnicas de pele, e os vestiu’ (Bereshit 3) –, você também deve vestir os nus; Hakadosh Baruch Hu, visitou os doentes – como está dito: ‘E apareceu-lhe D’us… (Bereshit 18) –, você também deve visitar os doentes; Hakadosh Baruch Hu consolou os enlutados – como está dito: ‘E aconteceu, depois da morte de Avraham Avinu, que D’us abençoou a Yitschak, seu filho’ (Bereshit 25) –, você também deve consolar os enlutados; Hakadosh Baruch Hu sepultou os mortos – como está dito: ‘E o sepultou no vale’ (Devarim 34) –, você também deve sepultar os mortos.”

Ou seja, fomos ordenados a imitar as condutas de D’us, a praticá-las, e, através disso, teremos o mérito de nos apegar a Ele. A Torá relata que D’us veio visitar Avraham Avinu e isso nos compromete – você tem um amigo doente? Interesse-se pelo seu bem estar! O próprio ato de se importar com o estado do doente, sopra nele um espírito de vida. “Alguém se importa comigo”, ele pensa consigo mesmo, “tenho um motivo para me curar; veja, estão me ligando, minha falta é sentida – eu tenho valor!…”

A Torá enfatiza que Avraham Avinu estava sentado à porta da tenda. Por que não, do lado de dentro? Afinal, estava muito quente lá fora, o sol estava escaldante, por que ele não estava recolhido dentro da tenda? Dizem nossos Sábios que Avraham Avinu sentou-se à porta para ver se havia transeuntes do lado de fora, a fim de poder trazê-los para sua casa, dar-lhes de comer e de beber… A virtude da bondade de Avraham Avinu – o atributo de Chessed (benevolência) nele – não lhe dava descanso, e mesmo naquele dia tão difícil, ele permanecia sentado, aguardando hóspedes… Não nos esqueçamos: Avraham Avinu estava no terceiro dia após a circuncisão, com noventa e nove anos de idade, e com todas as suas dores, procurava por convidados! Ele se esquecia de si mesmo e do clima… Uma única coisa estava diante dos seus olhos: talvez, quem sabe, por acaso, passasse por ali um viajante, que provavelmente estaria muito sedento e cansado, e ele desejava trazê-lo à sua tenda, alimentá-lo e dar-lhe de beber…

Será coincidência que, justamente no terceiro dia de sua circuncisão, o sol queimava com tanta intensidade? Aparentemente não. E assim escrevem os Sábios (Talmud Bavli, Tratado Bava Metzia, página 86a): “‘No calor do dia’ – Hakadosh Baruch Hu tirou o sol de seu invólucro para não o incomodar com hóspedes.” D’us planejou o calor justamente para aquele dia, a fim de que Avraham Avinu descansasse e não se esforçasse atendendo visitantes. D’us fez com que fizesse muito calor, para que não houvesse pessoas passando pela rua… nem mesmo um gato andava por ali… E Avraham Avinu?, O fato de não ter a quem hospedar lhe doía mais do que as dores da circuncisão… Em outras palavras, D’us tentava fazer com que Avraham Avinu descansasse, mas Avraham Avinu estava tão apegado aos atributos do Criador…! Afinal, o Criador sempre faz o bem, não há descanso em Sua bondade… E, apesar de todas as dificuldades, Avraham Avinu continuava sentado, esperando por hóspedes, e, quando isso não acontecia, ele sofria profundamente por isso…

Não sei se estamos em um nível tão elevado, mas talvez, ao menos, quando um mensageiro, um técnico ou até mesmo um mendigo chega à nossa porta, possamos oferecer-lhes ao menos um copo de água gelada. Acreditem em mim, para aquele pedinte, isso vale muito mais do que as moedas que ele recebe em outras casas. Lembro-me de que, na minha infância, numa tarde de inverno, com uma tempestade forte do lado de fora, um carteiro chegou à nossa casa para entregar um correio registrado. Minha mãe lhe ofereceu uma xícara de chá quente e ele aceitou alegremente. Jamais esquecerei do seu imenso prazer; via-se em seu rosto uma sensação de satisfação e felicidade, pois alguém havia compreendido: “Embora eu seja um carteiro, sou sobretudo um ser humano – eu também sinto frio…”.

D’us viu que Avraham Avinu estava tão entristecido, e, por amá-lo profundamente, enviou-lhe visitantes… “E levantou os olhos, e olhou, e eis que três homens estavam em pé junto a ele.” Avraham Avinu os viu, e imediatamente “correu ao seu encontro…” Avraham Avinu correu ao encontro deles; para ele, hóspedes eram como o ar que respirava…

Há aqui uma grande mensagem para nós: quando uma pessoa realmente deseja cumprir um preceito (mitzvá), quando realmente quer progredir, ela alcançará o objetivo! Veja, aqui: Avraham Avinu desejava tanto receber hóspedes, que D’us fez descer anjos para ele! Porque não há nada que resista à vontade! (Zohar, parte 2, folha 162, página 2).

Avraham Avinu lhes suplica: “Trazei-me agora um pouco de água, e lavai os vossos pés, e reclinai-vos debaixo desta árvore; e trarei um pedaço de pão, e confortai o vosso coração; depois passareis adiante, porquanto por isso chegastes até ao vosso servo…” Avraham Avinu lhes diz: “Entrem, servirei a vocês um pouco de água, pão…” Bem, o que ele lhes serviu, no final? Uau! Quem me dera ter estado lá… “E Avraham Avinu apressou-se a ir à tenda de Sara, e disse: Apressa-te, amassa três medidas de flor de farinha e faze bolos.” E correu Avraham Avinu ao gado e tomou um vitelo tenro e bom… E tomou manteiga e leite… E ele estava em pé, junto deles, debaixo da árvore, e comeram.” Os Sábios, no Midrash, escrevem que ele abateu três novilhos, para oferecer a cada um deles uma língua ao molho de mostarda… Isso é deduzido do excesso de palavras no texto: “um vitelo tenro e bom”.

O que vocês dizem de uma hospitalidade, como essa? A partir daí, dizem os sábios (Talmud Bavli, Tratado Bava Metzia, página 87a; Avot de-Rabbi Natan, Capítulo 13, Mishná 3): “Os justos dizem pouco e fazem muito.” Avraham Avinu disse que lhes daria um pedaço de pão e um pouco de água, e no final serviu-lhes um banquete real…

Pela continuação dos versículos, vemos que esses hóspedes não eram viajantes comuns — eram três anjos em forma de homens. Como sabemos disso? Pois eles anunciaram a Avraham Avinu que, no ano seguinte, nesta mesma época, nasceria para ele um filho. Essa é uma notícia que, superficialmente, carece de lógica: Avraham Avinu tinha cem anos, Sara tinha noventa… Sara riu ao ouvir o anúncio, e D’us chamou a atenção de Avraham Avinu por isso – “Por que se riu Sara?”. Um mero transeunte poderia fazer tal promessa? E, também, pela continuação dos versículos, quando eles vão para Sodoma, está escrito: “E vieram os dois anjos a Sodoma…” (Bereshit, 19:1).

Poderia o leitor perguntar: se eram anjos, por que tanta admiração pela generosa hospitalidade de Avraham Avinu? Qualquer um de nós, superaria as dificuldades por causa de anjos…? A resposta é que quando Avraham Avinu os viu pela primeira vez, ele não pensou nessa possibilidade – ele viu que eram homens comuns. Como sabemos? Em primeiro lugar, pela própria linguagem do versículo: “E olhou, e eis que três homens”. E a própria lógica indica isso, pois, se ele pensasse que eram anjos, não lhes teria oferecido comida… Somente mais tarde, após a recepção, ele descobriu que se tratava de anjos em forma de seres humanos.

E aqui temos uma pérola, maravilhosa, importante e muito atual para nós: como se sabe, não há palavra supérflua na Torá. Sendo assim, para que ela descreve o cardápio da refeição que Avraham Avinu lhes serviu? Apenas para nos dar noções culinárias? No Talmud (Bava Metzia, página 86a), bem como no Midrash (Bereshit Rabbah, Parashá 48), está escrito algo impressionante. A Torá não detalha sem motivo – há um significado para cada parte do menu, e para a forma como foi servido:

Cada ação que Avraham Avinu realizou ali, D’us recompensou seus filhos durante a permanência deles no deserto: como recompensa por ter dito “Traga-se agora um pouco de água”, seus filhos mereceram o poço de Miriam, que os acompanhou por toda parte. Como recompensa por ter dito “E lavai os vossos pés”, os filhos de Israel merecerão que D’us os lave de sua impureza no futuro vindouro (Yeshaiahu, Capítulo 4). E, como recompensa por ter dito “E reclinai-vos debaixo desta árvore”, seus filhos mereceram as Nuvens da Glória. Em virtude de ter dito “E trarei um pedaço de pão”, mereceram o Maná. E, em virtude de “E ele estava em pé junto deles”, mereceram que D’us andasse diante deles!!!…

Expliquemos estas coisas: D’us tirou os filhos de Israel do Egito para o deserto. Eles saíram apressadamente sem nada e D’us era “obrigado”, por assim dizer, a trazer-lhes comida e água. Mas Ele poderia ter-lhes dado pão e pepino, e variar de vez em quando com um ovo e um tomate… Mas não! D’us lhes deu o maná. David Hamelech descreve o Maná: “Pão dos fortes” (Lechem Abirim) – o pão que os anjos ministrantes comem. Por que eles mereceram um alimento tão especial? – Graças a Avraham Avinu! Avraham Avinu também poderia ter dado aos hóspedes pão e água, uma necessidade básica, mas o que ele lhes deu? Língua de vitela, três medidas de flor de farinha, manteiga e leite… Avraham Avinu os “mimou” muito além de suas necessidades básicas. Por isso, D’us, como recompensa e “pagamento” a Avraham Avinu, presenteou seus filhos com uma alimentação extraordinária. E o mesmo se aplica a todas as outras coisas: como Avraham Avinu se esforçou muito, além de suas capacidades e necessidades básicas, D’us também deu aos seus filhos, durante a permanência no deserto, muito além das necessidades de sua sobrevivência…

Certamente, deve-se perguntar: afinal, esta não foi a primeira vez que Avraham Avinu recebeu hóspedes; o que há de tão especial nesta ocasião para que D’us o recompense por cada detalhe? É que, desta vez, ele estava sofrendo muito mais, e os Sábios já determinaram: “Melhor é uma boa ação feita com sofrimento do que cem feitas sem sofrimento” (Avot de-Rabbi Natan, Capítulo 5, Mishná 6). D’us registra cada mandamento cumprido, em qualquer situação, mesmo quando é muito fácil de realizar; porém, quando uma pessoa cumpre um preceito no momento de dificuldade, quando está em sofrimento, então, D’us registra cada pequeno movimento, cada mínimo detalhe… Avraham Avinu cumpriu desta vez o preceito de acolher hóspedes nas condições mais difíceis que poderiam existir, e, por isso, D’us recompensa seus filhos multiplicadamente… Agora, compreendemos perfeitamente por que a Torá detalha o menu servido por Avraham Avinu…

Levemos este ponto para a nossa vida: é justamente quando está difícil, justamente quando a má inclinação (Yetzer Hará) me tenta e diz: “Agora está difícil para você, deixe para lá, fica para outra vez” – que é o momento mais propício para o cumprimento do preceito! A recompensa imensa que o Criador nos pagará pelo cumprimento de uma mitzvá em tais situações é inestimável…

Como vocês acham que seriam os visitantes? Homens de negócios, ou mendigos? Médicos ou trabalhadores? Ora, você está falando sério?! O que isso importa? Acreditem em mim, eu também pensava que não importava, até encontrar o Midrash…

O Midrash (Bereshit Rabbah, Parashá 48, Seção 9) descreve algo que, à primeira vista, parece incompreensível, mas, quando nos aprofundamos, revela-se diante de nós uma paisagem deslumbrante e revigorante para a alma. E assim está escrito: Os três convidados (anjos) – cada um parecia ter uma forma diferente do outro: um parecia um capitão de navio, o segundo parecia um padeiro, e o terceiro parecia um árabe ismaelita. É evidente que essas figuras representam uma metáfora, para uma ideia profunda… Qual é ela?

Para compreender a interioridade das coisas, faremos uma breve introdução: o Midrash (Tanchuma, Parashat Nasso, Seção 18) traz que, antes de D’us criar o homem, os anjos ministrantes Lhe disseram: “Que é o homem mortal para que te lembres dele?” — Para que criar o homem, uma criatura tão fraca, que causa problemas em todos os lugares, destrói a camada de ozônio, seca pântanos, extingue animais…? Para quê?” D’us lhes disse: “Vale a pena para Mim criar o mundo, nem que seja apenas por causa de pessoas especiais, como Avraham Avinu!”

Os anjos que vieram agora a Avraham Avinu, são os mesmos anjos que se opuseram à criação do homem. Agora, eles vêm para ver Avraham Avinu – o homem e a lenda, o ser humano pelo qual, unicamente, valeu a pena criar o mundo. Eles vieram ver quem ele era, o que havia de especial nele… Depois de verem a sua dedicação de alma ao preceito de acolher hóspedes, o seu imenso amor pela benevolência; depois de verem como um judeu de noventa e nove anos, no terceiro dia de sua circuncisão, sob um calor escaldante, esforçava-se em os hospedar com honras reais – só então eles compreenderam perfeitamente por que, somente por causa dele, valia a pena criar o mundo…

Aquelas figuras de capitão de navio, padeiro e ismaelita representam as três partes do mundo. O mundo está dividido em três partes: um terço de mar, um terço de deserto, e um terço de área habitada (claro, não um terço exato). Cada anjo representa uma parte: o capitão de navio representa o terço marítimo, o árabe ismaelita representa os desertos e as desolações do mundo, e o padeiro representa o terço habitado, onde vivem os seres humanos que se alimentam do pão. Esses anjos, os “responsáveis” pelo mundo, vieram testemunhar de perto a “justiça” de D’us, demonstrando que vale a pena criar todas as partes do mundo, nem que seja apenas por causa de pessoas como Avraham Avinu… A Torá não nos revelaria isso, se não fosse relevante para nós. É preciso saber! Em cada geração, há pessoas pelas quais vale a pena criar e sustentar o mundo. Essas pessoas podem ser você! Nós!!! Precisamos apenas nos apegar ao caminho dos nossos antepassados, praticar a benevolência, perseguir o bem… Quem de nós não gostaria de ser uma dessas pessoas…?

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