
Quando um homem mereceu e viveu todos os dias de sua vida adequadamente, fica evidente no momento de seu falecimento que sua vida neste mundo foi uma vida de verdade, e que seus anos sobre a terra se tornaram parte da vida eterna.
Duas porções na Torá tratam da morte e da despedida da vida: nossa porção, que lida com o falecimento de nossa matriarca Sara, e a segunda, que descreve o falecimento de nosso patriarca Yaakov. É precisamente nos nomes dessas porções que a expressão “vida” aparece: Chayei Sara (“A Vida de Sara”), e Vayechi (“E viveu” — referindo-se a Yaakov).
Existe aqui uma pista para a determinação dos nossos Sábios de que “os justos, em sua morte, são chamados de vivos”.
Diante de cada pessoa, quem quer que seja, apresentam-se duas possibilidades: a primeira — deixar o tempo passar por cima dela; e a segunda — ela passar por dentro do tempo. Uma pessoa pode ir dormir, no final do dia, tendo atrás de si um dia que passou sem significado ou realização. O dia passou sobre ela. Em contrapartida, uma pessoa que aproveitou o dia, avançou em direção a objetivos, aprendeu e praticou boas ações — é uma pessoa que passou por dentro do dia. O tempo deixou a sua marca, impressa em sua personalidade, para sempre.
A vida do homem se divide em vários períodos: a infância, a adolescência, a maturidade e a velhice. A pessoa descarta de si a sua adolescência, e traz a sua maturidade em seu lugar. Isso é desejável e recomendável, mas não é perfeito. O passo perfeito é que a pessoa traga sobre si a sua maturidade, de modo que ela não substitua a sua adolescência, mas sim a complemente e adicione uma camada sobre ela. A adolescência tem virtudes, que se encontram apenas nela. A pessoa ideal deixa em seu interior as virtudes da adolescência, e acrescenta a elas as virtudes da maturidade.
Em uma menina de sete anos, há a inocência, a pureza da infância. Essas são coisas que não se encontram em jovens de vinte anos. Geralmente, descartamos a infância, com toda a sua beleza, inocência e pureza, e avançamos em disparada em direção à juventude. Tendemos a trocar a infância pela juventude e não deixamos os tesouros da infância como uma propriedade existente e eterna.
Há quem viva até a velhice avançada, mas, quando você examina os seus anos pelo critério do seu valor, descobre que, de acordo com esse critério, a sua idade é como a de uma criança… Um caminho de vida, como este, que caracteriza não poucas pessoas, é descrito na seguinte história:
No lar de idosos, na periferia da cidade, Moisés senta-se no banco antigo do pátio. Ele está pensativo: “Quem sabe eu ponha os acontecimentos da minha vida no papel, quem sabe se encontre alguém que se interesse por eles…”.
Do pensamento à ação. Ele se levanta do banco, pega o andarilho que o espera em silêncio e sobe devagar para o seu quarto. Sentou-se à escrivaninha, acendeu a luz do abajur, pegou uma folha de papel e escreveu nela, em letras grandes: “Estes são os acontecimentos da minha vida”. Enfiou a caneta na linha seguinte, e quis começar a escrever a história da sua vida.
“Sobre o que escreverei?”, perguntou a si mesmo, “pois dos dias da minha infância, quando eu era um bebê no berço, eu não me lembro”. “Escreverei sobre a aurora da minha infância, como eu brincava na lama e na sujeira e minha mãe me batia por causa disso? “Ora, a geração mais jovem não entenderá do que estou falando!”
“E talvez eu escreva sobre o triciclo que meu avô me comprou no meu sexto aniversário? Não há nada de interessante nisso.” “Também não posso escrever sobre a viagem escolar que fizemos. Não fizemos rapel, rafting ou bungee jump; não havia nada de especial naquela época. Tudo seco, sem atrações, apenas uma caminhada na natureza…”.
“É melhor que eu comece pelo período da adolescência, a partir do meu Bar Mitzvá. Escreverei como comemorei com os amigos, mencionarei os presentes que recebi, os votos que me desejaram!” “Mas não! O que há de especial nisso? Não há aqui nada digno de nota, um desperdício de papel!”
“As irritantes espinhas da adolescência, os exames chatos, os dias que se passaram sem que fizéssemos nada neles. Sobre isso, também não dá para escrever…” “Sendo assim, devo começar pelo período do exército. Escreverei quão fortes éramos, como queríamos conquistar o mundo inteiro, como festejávamos juntos, como achávamos que íamos salvar o mundo, e descobrimos que os comandantes “nos enganaram”. Como passaram e se foram, três anos de nada. Não! Não há novidade alguma nisso.”
“Eu sei por onde começar! Os dias do meu casamento! Aqueles foram dias bonitos! Dias de esperança, de otimismo, de amor e de alegria!” Mas, o que restou daqueles dias? Uma lembrança turva, de um saldo negativo no banco, de correr de um local de trabalho para outro. Os filhos, que nasceram, cresceram e se rebelaram. O saldo negativo, que cresceu junto com os filhos, os bilhetes dos professores e a correria entre escritórios. Não, não poderei escrever sobre isso!“
“Talvez eu comece pelo período tardio? Quando os filhos foram para o Exército e eu e minha esposa ficamos sozinhos, sobrecarregados de tempo livre para discussões e para olhar para trás, para os dias da juventude que se foram? Talvez eu escreva sobre o cachorro que compramos, para aliviar a solidão? Sobre os filhos, que vinham visitar uma vez por mês para pedir dinheiro para a vida? Não, chato demais…”.
“O que resta?” Os dias da velhice! Corríamos juntos, de médico em médico, de um hospital para outro, até que, em um dia sombrio, acompanhei a minha esposa até o seu pedaço de terra. Depois disso, os filhos me mandaram para o lar de idosos…”.
De manhã, a porta se abriu por fora. Junto à escrivaninha, encontraram um homem idoso e encurvado, com o corpo completamente frio, curvado sobre uma escrivaninha, e, sobre ela, uma folha em branco cujo título dizia: “Estes são os acontecimentos da minha vida”…
Quando a Torá vem para fazer o elogio fúnebre da matriarca Sara, lê-se: “E a vida de Sara foi de cem anos, e vinte anos, e sete anos; os anos da vida de Sara” (Gênesis 23:1). Por que não foi escrito: “E a vida de Sara foi de cento e vinte e sete anos”? A Torá quer louvar a Sara, indicando que, aos cem anos, ela era como de vinte, e, aos vinte, era como de sete — que todos os dias da sua vida foram igualmente bons.
Sara levou consigo a menina de sete anos e a de vinte — a pureza da de sete anos, e as virtudes da de vinte —, ao longo de todos os dias de sua vida, mesmo quando tinha cem anos. Assim, também, foi Abraão. Sobre ele, a Torá escreve (Gênesis 24:1): “E Abraão era velho, avançado em dias” — ele veio com todos os seus dias junto consigo; cada dia foi aproveitado ao máximo e tornou-se parte inseparável de sua personalidade.
O trabalho de aproveitar o tempo não é fácil, de jeito nenhum. O instinto maligno tenta arrancar do homem o presente mais precioso, que está em suas mãos — o tempo determinado, colocado à sua disposição.
Às vezes, ele infunde no homem uma letargia, para que ele não perceba a passagem dos dias, e, às vezes, pelo contrário, sobrecarrega-o com inúmeras preocupações. Há quem fique à toa, com seus pensamentos girando em torno da pergunta: “Como matar o tempo”, e há quem nunca tenha tempo, mas, quando você examina, descobre que ele está sempre ocupado com assuntos que não passam de destruição do tempo.
Com a sua grandeza espiritual, a matriarca Sara demonstrou um exemplo pessoal de valorização da verdadeira vida. As suas ações provinham de uma renovação e de um despertar interno, na sua velhice, exatamente como nos dias de sua juventude. Dessa maneira, a vida de Sara tornou-se um assunto elevado e sublime, que transporta o homem de um mundo efêmero para a vida eterna. Também a nós, seres humanos “simples”, é dada a oportunidade — se ao menos quisermos — de transformar o tempo em uma era que não perece, é dada a oportunidade de tornar cada momento significativo, cada segundo — eterno. O domínio sobre o tempo, o domínio sobre a vida, é…
Somos todos seres humanos, todos precisamos dormir, comer e cuidar de assuntos de sustento, mas uma pessoa pode comer para comer e uma pessoa pode comer para poder viver uma vida verdadeira e realizar boas ações, para colher moedas de eternidade. Com essa abordagem, a própria alimentação une-se ao cântico dos momentos da vida da pessoa…
O Aproveitamento do Tempo
Certa vez, quando o Maran Rabino Ovadia Yosef, de bendita memória, residia em Tel Aviv, na Avenida Rothschild, a luz elétrica de seu quarto apagou-se, e ele saiu para a varanda e estudou à luz da lâmpada do poste elétrico fixo na rua. E testemunhou um vizinho, temente a Deus, que morava do outro lado da calçada, em frente à casa do Maran, que o viu em pé, curvado sobre um livro, por várias horas, e, quando o vizinho acordou para rezar o Vatikin (ao raiar do dia), encontrou o Maran ainda naquela mesma postura, e profundamente absorto no estudo do livro em sua mão, pois ele buscava aproveitar cada instante.
Em uma das manhãs, o Maran acordou e, contrariando o seu costume, imediatamente lavou as mãos, recitou as bênçãos da Torá, e apressou-se para a biblioteca, a fim de examinar as respostas (Responsa) do Rivash (Rabbi Isaac bar Sheshet). À pergunta de seu filho, o Rabino Yaakov Yosef de bendita memória, sobre o porquê de ter se apressado logo ao acordar para examinar a Responsa do Rivash, ele recusou-se a responder. Após muita insistência, contou que, durante a noite, havia tido dificuldades com as palavras do Rivash e visto uma contradição em suas declarações, e lhe ocorrera resolver as palavras do Rivash de tal e tal maneira. E, quando foi deitar, o Rivash veio a ele em um sonho, com a barba descendo até o peito, e disse-lhe: “Eu sou Isaac bar Sheshet; sossega a tua mente, pois resolveste a dificuldade”, e ele viu que, de fato, as palavras do Rivash estavam perfeitamente resolvidas.
Até que ponto nossos Sábios se sacrificaram pelo estudo da sagrada Torá — isso não se pode descrever, nem imaginar. Segue-se uma história maravilhosa, pela qual se pode aprender um pouco sobre a diligência extraordinária de nossos Sábios: certo dia, o Maran HaGaon Rabino Ovadia Yosef, de bendita memória, foi convidado para o casamento do filho de seu amigo, o grande Gaon Rabino Ben Zion Abba Shaul, de bendita memória. Entre os convidados presentes, estava também o Rabino Meir Brandsdorfer, de bendita memória, juiz principal do tribunal rabínico da Edah HaChareidis. Maran Harav Ovadia aguardou pela cerimônia da chupá (do dossel nupcial), mas, por alguma razão, houve atrasos. Vendo Maran Harav Ovadia que a cerimônia estava atrasada, ele quis ir embora. Disse-lhe o Rabino Brandsdorfer: “Se Vossa Excelência teme a interrupção do estudo da Torá, venha, vamos estudar juntos. Agora, estamos no casamento de “Abba Shaul”, vamos citar os ditos de “Abba Shaul” que aparecem no Talmud em ordem sequencial”. E assim o fizeram, dito após dito: Maran Harav Ovadia dizia um dito e, logo após, ele, o Rabino Brandsdorfer, continuava com o dito seguinte. Assim fizeram por cerca de vinte minutos, até que o Rabino Brandsdorfer disse um dito e Maran Harav Ovadia veio para dizer o dito seguinte.
Nesse momento, o Rabino Brandsdorfer o deteve, e lhe disse que ele havia pulado um dito. Maran Harav Ovadia: “Perdão a Vossa Excelência, mas o Maharsha afirma ali no local que este não é o ‘Abba Shaul’ comumente encontrado no Talmud, esse é o Abba Shaul ben Botnit.