Rabino Arie Rotenberg

O significado da vida à luz das provações de HaKadosh Baruch Hu

O mundo foi criado com o Atributo da Justiça (Middat HaDin). HaKadosh Baruch Hu começou a criar o mundo com o Atributo da Justiça, mas viu que o mundo não conseguiria subsistir; por isso, antecipou-se e associou o Atributo da Misericórdia (Middat HaRachamim) ao Atributo da Justiça.

O Atributo da Justiça está submetido a regras e leis claras, à ordem e à equidade, segundo a lei — tudo é preciso, com limite e medida. A conduta do Atributo da Justiça diz: se você merece, você recebe; se não merece, não recebe. E há também o Atributo da Bondade (Middat HaChesed). O homem, por outro lado, foi criado com o Atributo da Bondade, que é o oposto do Atributo da Justiça. O Atributo da Bondade é uma doação infinita, sem nenhum cálculo de merecimento, ou não; é “além da estrita justiça” (Lifnim MiShurat HaDin). A bondade é sem limites e sem “regras” — a bondade pode ser recebida sem limite e sem medida. HaKadosh Baruch Hu comporta-se com o homem através do Atributo da Bondade: ele não merece nada! Apenas precisa agradecer por tudo o que recebe, por cada respiração: “Tudo o que tem fôlego louve a D’us ” (Kol HaNeshamah Tehalel Yah).

Hoje, mais do que nunca, compreendemos que é preciso agradecer por cada respiração, sem máscara, e que nada é garantido. Fica claro para nós que toda a abundância provém, única e exclusivamente, da vontade de HaKadosh Baruch Hu de fazer o bem a nós e a todas as Suas criaturas. Uma das maiores dificuldades da vida é que o homem deseja viver com uma abundância constante e permanente de saúde, sustento, filhos, moradia e muito mais… A abundância Divina que desce para o homem não é permanente e constante; ela chega de forma instável, com oscilações. Mesmo quando o homem alcança o que desejava, ele nunca sente que aquilo será permanente e garantido, para ele, também no futuro.

Cada pessoa sabe que todo o seu mundo pode virar do avesso e mudar em um único instante, e a “incerteza” é uma das coisas que mais dificultam a vida do homem, tirando-lhe a tranquilidade e a alegria de viver, pois quem sabe o que o amanhã trará?

É preciso compreender que Bondade e Justiça são opostos, que criam um conflito. A dificuldade constante em que o homem vive decorre da diferença entre a regência do mundo, que é pela justiça, e a regência do homem, que é pela bondade. O Atributo da Justiça apresenta-se diante de HaKadosh Baruch Hu, acusando o homem e dizendo: há aqui uma realidade ilógica. Não é possível que Tu Te comportes com o homem através do Atributo da Bondade, no momento em que escolheste criar o Teu mundo e regê-lo através do Atributo da Justiça. Essas são duas condutas contraditórias. Assim, ela busca formas de acusar o homem e de impedir que cheguem a ele a abundância e as bondades que HaKadosh Baruch Hu deseja fazer descer para ele. O Atributo da Justiça afirma que o homem não merece abundância e bondade constantes, pois, embora o homem cumpra as Mitzvot, ele também falha, peca, e não faz a vontade de D’us de forma constante e contínua; e, se ele não faz a vontade de D’us de forma contínua, não há razão para que a abundância desça para ele de forma contínua!

O Atributo da Justiça tem certa razão em sua alegação, mas HaKadosh Baruch Hu é bom e misericordioso e deseja fazer o bem ao homem além da estrita justiça. Portanto, o que Ele faz? D’us, que é Bendito, que sonda os rins e o coração, propõe ao Atributo da Justiça enviar uma provação ao homem, para fechar a sua boca, para que ela não possa acusar o homem, e assim provar que ele Lhe é fiel, tornando possível fazer descer para ele uma abundância constante e permanente.

Quem sabe se o homem resistirá à provação? HaKadosh Baruch Hu! Aquele que sonda os rins e o coração não submete o homem a uma provação, a menos que ele possa suportá-la; as forças e as ferramentas para lidar com essa provação estão presentes e incutidas no homem.

Se HaKadosh Baruch Hu trouxe uma provação ao homem, é certo e garantido que o homem pode superá-la com sucesso.

O homem que supera a provação bloqueia a possibilidade do Atributo da Justiça se expressar e recebe dos Céus uma grande abundância. Mas, se o homem não supera a provação, o Atributo da Justiça pode, D’us nos livre!, dominar o homem e puni-lo. Quando o homem supera a provação, ele recebe “por justiça” toda a abundância e bondade com que HaKadosh Baruch Hu deseja agraciá-lo. O próprio Atributo da Justiça “assina” a bondade que o homem recebe, justificando a existência da bondade e da abundância constante que descerão para o homem, pois a abundância chega “por justiça” — isto é, o homem adquire “por justiça” o direito de que desça dos céus para ele uma abundância abundante, de forma constante e estável.

Surge a pergunta: talvez seja conveniente para o homem pedir a HaKadosh Baruch Hu que retire dele a provação que lhe enviou, porque não é certo que ele irá superá-la e também porque suas forças já se esgotaram? A resposta é clara: se HaKadosh Baruch Hu retirar a provação do homem, há a chance de que o Atributo da Justiça não “aprove” a descida da grande abundância que HaKadosh Baruch Hu deseja conceder-lhe, e o homem apenas perderá todas as salvações que deseja e anseia alcançar — e isso seria a perda da oportunidade da sua vida! Somente após a “aprovação e assinatura” do Atributo da Justiça, a abundância pode descer para o homem, de forma estável e constante, e ninguém mais poderá acusá-lo! Pois, a permanência da abundância lhe cabe por justiça — e não por bondade! E esta é a razão para as dificuldades e provações que o homem enfrenta. Não é possível que a vida do homem seja sem dificuldades e provações, exatamente como não é possível que o homem viva, sem que a abundância desça para ele.

O homem sofre quando lhe acontecem coisas que ele não deseja; o sofrimento decorre do fato de o homem discutir com a realidade — de resistir a ela. O homem que encontra o significado para a dificuldade e para o sofrimento consegue aceitá-lo e resignar-se com ele mais facilmente, pois o sofrimento se destina a ratificar, para o homem, a abundância que receberá, fixando-a e intensificando-a, “por justiça”, para que a abundância não pare de descer para o homem, de forma constante! O homem que reconhece esse fato encontra as forças para lidar com o sofrimento “produzido” pelas dificuldades e provações, e somente assim a abundância nunca cessará para ele! Quem estaria disposto a abrir mão disso?

Depreende-se, disso, que a dificuldade e o sofrimento são o recipiente para o recebimento da abundância. O propósito do sofrimento é completamente diferente do que pensávamos até hoje. Agora, o homem sabe que há um significado enorme no sofrimento, e que ele até “vale a pena”, pois se destina a fazer descer para ele uma abundância contínua, estável e constante, e ainda com a “assinatura” do Atributo da Justiça! Esse novo olhar sobre a dificuldade e a provação, concede ao homem forças extraordinárias e uma abundância grandiosa, vinda dos céus.

Significado para a Vida

Um dos enigmas sobre os quais a humanidade tem se debruçado desde os primórdios de sua existência é a questão do propósito da vida. Qual é o segredo da vida? Qual é a forma da sua formação? Qual é a causa e o objetivo da existência, em geral, e da existência humana, em particular? Quando o homem não conhece o propósito da vida, ele também não é capaz de encontrar o seu papel e o seu objetivo na vida. O judaísmo oferece uma resposta a essa pergunta milenar e carregada de mistérios, que ainda paira em nosso mundo e exige sua decifração. O Povo de Israel teve o mérito de, no evento do Monte Sinai, o Criador do Universo se revelar a ele e revelar o segredo aos Seus filhos: qual é o propósito da vida e qual é a vocação do homem sobre a terra.

O judaísmo afirma que o homem deve cumprir as seiscentas e treze mitzvot. Parte das mitzvot está distante da sua compreensão, e ele não é capaz de alcançar a sua profundidade; já outras estão mais próximas do seu entendimento, e ele julga ter compreendido o seu objetivo. Essas mitzvot enquadram-se na categoria de “entre o homem e seu próximo”. Mesmo quanto às mitzvot que o homem julga ter compreendido, ele compreende apenas a casca exterior do segredo de sua essência.

O plano do mundo, que é também o plano da vida, está oculto na Torá. De acordo com ela, o mundo foi criado. Assim é dito no Midrash (Bereshit Rabbah 1:2): “A Torá diz: ‘Eu era o instrumento de trabalho de HaKadosh Baruch Hu. Pelo costume do mundo, um rei de carne e osso, que constrói um palácio, não o constrói de sua própria mente, mas possui pergaminhos e cadernos para saber como fazer os cômodos, como fazer o palácio. Assim, HaKadosh Baruch Hu olhava para a Torá e criava o mundo'”. Consequentemente, quanto mais o homem se aprofundar na Torá, mais sábio se tornará, para compreender a essência do mundo e o seu propósito. Da mesma forma, quanto mais o homem viver sua vida de acordo com as Mitzvot, da Torá, mais sua vida será cheia de propósito e significado.

Shelomo Hamelech, o mais sábio de todos os homens, instruiu-nos que o objetivo da vida do homem é o cumprimento das Mitzvot do Criador. Assim são suas palavras em Kohelet (12:3): “Teme a D’us e guarda as Suas Mitzvot, porque este é o todo do homem”. Ou seja, o apego ao cumprimento das Mitzvot de D’us confere significado à vida do homem.

O Homem — Uma Criatura em Busca de Sentido

Muitos pensadores buscaram desesperadamente o sentido da vida. O neurologista e psiquiatra Viktor Frankl destacou, em seu livro “Em Busca de Sentido”, a importância de encontrar um sentido para a vida. Como sobrevivente do Holocausto, Frankl descreve, a partir de suas experiências, que seres humanos, que supostamente deveriam ter perdido qualquer traço de humanidade nos campos de concentração, descobrem, dentro de si, forças de ânimo extraordinárias, e não apenas sobrevivem, mas também encontram sentido para suas vidas dentro do inferno. Segundo Frankl, pessoas que eram fisicamente fracas, mas encontraram um sentido para a vida, conseguiram sobreviver ao inferno, e suportaram o sofrimento mais difícil melhor do que pessoas que eram fisicamente fortes e robustas.

Frankl explica que o homem aspira ao sentido e que este é o impulso e o desejo mais profundo do homem. Quando o homem compreende o sentido da sua vida e do mundo em que se encontra, ele tem a capacidade de enfrentar o sofrimento e a aflição, por mais difíceis que sejam. Frankl define o homem como “uma criatura em busca de sentido, que se ocupa na procura por um significado”. Precisamente, na vida moderna, argumenta Frankl, o homem possui os meios, mas perdeu o propósito. O homem sofre de uma sensação de esterilidade e falta de sentido, denominada “vazio existencial”.

Uma pessoa sem sentido, segundo as palavras de Frankl, sofre de tédio — uma sensação que se expressa na tríade de agressividade, depressão e vício. Segundo o renomado psiquiatra, esse mesmo vazio existencial causa a maioria dos males espirituais e problemas psicológicos. Consequentemente, no momento em que o homem preencher o seu vazio interior e encontrar sentido para a sua vida, em algo fora de si mesmo, ele poderá empenhar-se no preenchimento desse sentido, descobrir a sua verdadeira existência humana e, assim, a maioria dos seus problemas será resolvida. (Viktor Frankl, Em Busca de Sentido, pág. 14).

No Ma’amar HaIkarim (Ensaio sobre os Princípios Fundamentais), o Ramchal escreve: “O essencial de toda a criação é que HaKadosh Baruch Hu desejou criar o homem para que ele se apegasse a Ele, desfrutando do bem verdadeiro. E isso, através do fato de haver diante dele dois caminhos: o caminho do bem e o caminho do mal, tendo ele o poder de escolher qualquer um deles que desejar. E, quando ele escolher, por seu discernimento e sua vontade, o bem, e rejeitar o mal, então lhe será concedido o bem verdadeiro e eterno”.

Por que foram criadas as demais criaturas? O Ramchal responde: “E, na verdade, todas as outras criaturas só foram criadas porque a Sabedoria Suprema viu necessidade noutras para que existisse um mundo perfeito, no qual o homem existisse sob esta perspectiva que mencionamos, e pudesse servir a Ele, Bendito Seja, alcançando por meio disso o bem verdadeiro. Contudo, qual é a necessidade que o mundo tem de todas essas criaturas, não nos é conhecido; mas, o que recebemos de Chazal é que o principal de tudo é o homem, e que, por causa dele, foram criadas todas as demais criaturas, e que o objetivo principal da criação do homem não é senão para que ele mereça o bem verdadeiro. No entanto, a Sabedoria Suprema viu que, para que alcancem esse bem verdadeiro, é apropriado que primeiro seja provado e resista à provação. E, eis que, para essa finalidade, criou para ele um mundo no qual houvesse lugar para prová-lo, ou seja, no qual houvesse a realidade do bem e a realidade do mal, até que ele possa rejeitar o mal e escolher o bem”.

O Ramchal continua com a doçura de suas palavras e elucida: “E, na verdade, a existência do bem e do mal verdadeiros é que HaKadosh Baruch Hu colocou no mundo: Kedushá (santidade) e Tumá (impureza). Explicação: Kedushá é a realidade da proximidade a Ele, Bendito Seja; e a Tumá, é a realidade do afastamento dEle, Bendito Seja. A Kedushá é a influência que HaKadosh Baruch Hu faz fluir sobre aquele que é digno disso, e a habitação [da Sua Presença] que repousa sobre ele; a Tumá é o afastamento com que HaKadosh Baruch Hu Se afasta, e o ocultamento com que Se oculta”. O homem tem a capacidade de influenciar todo mundo inteiro. “E, HaKadosh Baruch Hu, colocou poder nas ações do homem para despertar as raízes superiores, isto é, para que atraiam a luz da influência da Sua Kedushá, Bendito Seja, e a luz do Seu Bem, ou a atração daquela contaminação e impureza”, escreve o Ramchal. “E reservou para ele ações, através das quais a Kedushá é atraída, e ordenou-lhe perseverar nelas — que são o conjunto das Mitzvot; e reservou ações, através das quais a contaminação é atraída, e ordenou-lhe abster-se delas — que são o conjunto das proibições. E na verdade o bem verdadeiro não é senão o apego (Devekut) a Ele, Bendito Seja. E, quanto às Mitzvot, já explicamos que são elas que atraem a influência da Sua Kedushá, Bendito Seja, e a luz do Seu bem”.

Botão Voltar ao topo